Reiki

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Os kanji rei e ki significam “universo” e “energia” respectivamente; desse modo, reiki pode ser traduzido como “energia universal”.

Reiki (霊気? /ˈrk/) é uma prática[1] enquadrada no vitalismo, criada em 1922 pelo monge budista japonês Mikao Usui. Tem por base a crença na existência da energia vital universal “Ki” (a versão japonesa do conceito chinêsQi” (ou “Chi“), manipulável através da imposição de mãos.[2][3] Através desta técnica, os praticantes acreditam ser possível canalizar a energia universal (i.e., reiki) em forma de Ki (japonês: ki) a fim de restabelecer um suposto equilíbrio natural, não só espiritual, mas também emocional e físico.

Existem dois ramos principais do Reiki, normalmente referidos como “Reiki tradicional japonês” e “Reiki Ocidental”. Embora as diferenças entre os dois ramos e tradições possam ser amplas e variadas, a principal delas é que nas formas ocidentalizadas usam-se posições pré-definidas para a imposição das mãos, ao invés de depender de um senso intuitivo para a transmissão da energia Reiki, como é habitualmente feito em agências de Reiki japonesas. De uma forma geral ambos os ramos têm uma hierarquia de três níveis (ou graus), referidos como Primeiro, Segundo e Nível Mestre/Professor, os quais estão associados com diferentes habilidades e técnicas.[4]

O conceito do Ki no qual se baseia o Reiki é especulativo, não existem quaisquer evidências científicas da sua existência.[5] É uma prática de medicina alternativa que não é reconhecida pela comunidade científica. Existem poucos estudos de qualidade sobre o tema e os que existem não demonstram a eficácia do Reiki para quaisquer condições de saúde.[6][7][8][9] Alguns profissionais de cuidados médicos alertam para o risco dos pacientes poderem evitar ou atrasar tratamentos para doenças graves, clinicamente comprovados.[10][11] Uma avaliação sistemática de 2008, baseada em ensaios clínicos com aleatoriedade, concluiu que a eficácia não foi demonstrada para qualquer condição de saúde. Um ensaio clínico de 2011, envolvendo 189 pessoas, não registou diferenças entre o grupo Reiki e o grupo de terapia placebo.[6][12] A Sociedade de Cancro Americana e o Centro para a Medicina Complementar e Alternativa dos Estados Unidos também concluíram que não existe nenhuma evidência científica de que o Reiki seja efetivo como tratamento para quaisquer doenças.[13][14]

Apesar dessa falta de comprovação científica de eficácia, o Reiki é disponibilizado em muitos hospitais e clínicas médicas.[15][16][17][18][19]

Índice

História

Derivação do nome

A palavra reiki é um estrangeirismo do japonês reiki (霊気, que significa “atmosfera misteriosa”), que deriva do chinês língqì (靈氣, “influencia sobrenatural”), a primeira utilização de que há registo na língua inglesa data de 1975.[20] Em vez da normal transliteração, alguns autores de língua inglesa pseudo-traduziram reiki como “energia vital universal”.[21]

Reiki escreve-se normalmente como 霊気 em shinjitai kanji ou como レイキ no silabário katakana. É composto pelas palavras rei (: “espírito, milagroso, divino”) e ki (; qi: “gás, energia vital, sopro de vida, consciência”).[22] O ki (mais conhecido por qi ou ch’i chinês) no reiki é entendido pelo significado “energia espiritual; energia vital; força vital“.[23] Algumas traduções equivalentes dos dicionários de Japonês-Inglês são: “sensação de mistério”[24] e “uma atmosfera etére (que prevalece nos recintos sagrados de um santuário); (sentido, sentimento) uma presença espiritual (divina).”[25] Para além da pronunciação sino-japonesa habitual do reiki, os caracteres kanji 霊気 têm uma leitura japonesa alternativa, nomeadamente ryōge, significando “demónio; fantasma” (especificamente possessão espiritual).[26]

Origens

O sistema do Reiki foi desenvolvido por Mikao Usui(臼井甕男) em 1922 enquanto praticava Isyu Guo, um treino budista de 21 dias organizado no Monte Kurama[27] Não se sabe quais eram as actividades exigidas a Usui durante o treino, contudo envolviam muito provavelmente meditação, jejum, cânticos e orações.[28][29] Alega-se que através de uma revelação mística, Usui ganhou conhecimento e poder espiritual que podia aplicar a outros e que ele apelidou de Reiki e que dizia entrar pelo seu corpo através do seu Chacra Coroa.[28]Em abril de 1922, Usui mudou-se para Tokio onde fundou o Usui Reiki Ryōhō Gakkai (“” em old style characters, que significa “Sociedade do Método de Energia Espiritual Terapêutica de Usui”) para assim continuar alegadamente a tratar pessoas com o Reiki.[28][30]

De acordo com as inscrições no seu túmulo,[31] Usui ensinou o seu sistema de Reiki a mais de 2000 pessoas durante a sua vida e dezesseis dos seus alunos continuaram o seu treino para chegar ao terceiro nível.[31][32]

Enquanto ensinava Reiki em Fukuyama (福山市, Fukuyama-shi), Usui sofreu um enfarte e morreu a 9 de março de 1926.[31]

Desenvolvimento precoce

Após a morte de Usui, J. Ushida, um aluno de Usui, assumiu o cargo de presidente da a Usui Reiki Ryoho Gakkai[33]. Ele também foi responsável pela criação e montagem de um memorial de pedra junto ao túmulo de Usui[33]. Ushida foi sucedido por Iichi Taketomi, Yoshiharu Watanabe, Kimiko Koyama e o sucessor atual para Usui, Kondo, que se tornou presidente em da Sociedade em 1998[33]. Os dezesseis mestres iniciados por Usui incluem Toshihiro Eguchi, Jusaburo Guida, Ilichi Taketomi, Toyoichi Wanami, Yoshihiru Watanabe, Keizo Ogawa, J. Ushida, e Chujiro Hayashi[33][34].

Antes da morte de Usui, o médico naval japonês Chujiro Hayashi (林忠次郎) explicou a Usui sobre o desenvolvimento de uma forma diferente e muito mais simples de Reiki, e Usui a aprovou[35]. Após a morte de Usui, Hayashi deixou a Usui Reiki Ryoho Gakkai e formou a sua própria clínica, onde aplicou aulas e tratamentos Reiki[33]. Hayashi treinou a japonesa-norte-americana Hawayo Takata na aplicação de Reiki e em 1938 ela se tornou Mestra da terapia[36][37]. Takata fundou várias clínicas de Reiki em todo o Havaí[36]e pode ser considerada a principal difusora do Reiki no Ocidente[38].

Os cinco princípios do Reiki

Usui era um admirador dos trabalhos literários do Imperador Meiji (明治天皇 Meiji tennō). Enquanto desenvolvia o sistema do Reiki, Usui condensou alguns dos trabalhos do imperador num conjunto de princípios éticos (chamados de “Conceitos” 概念 Gainen), que mais tarde se tornaram os Cinco Preceitos do Reiki (五戒 Gokai, significa “Os Cinco Mandamentos”, dos ensinamentos do Budismo contra o assassinato, roubo, má conduta sexual, mentira e intemperança). Para muitos praticantes e professores do Reiki é habitual obedecerem estes cinco preceitos ou princípios.[39]

     

Ensinamentos

Os ensinamentos do Reiki alegam que este é inesgotável[40][41] e pode ser usado para produzir um efeito de cura.[42] Os praticantes alegam que qualquer pessoa pode aceder a esta “energia”[43] por intermédio de um processo de “sintonização” realizado por um mestre de Reiki.[44] O Reiki é descrito pelos seus seguidores como uma terapia holística que traz não só cura espiritual, mas também física, mental e emocional.[45] A crença é que a “energia” flui através das mãos do emissor para qualquer sítio que estas sejam colocadas.[46] Para além desta noção acredita-se que esta “energia” é “inteligente”,[47] o que significa que o Reiki sabe para onde deve dirigir-se para a efectuar a cura, mesmo que as mãos não estejam colocadas no local exacto.

Formação

O ensino do Reiki fora do Japão está dividido normalmente em três níveis[48] ou graus. O Reiki tradicional japonês foi ensinado intensamente sob a orientação de Usui, com reuniões semanais de meditação onde o Reiki era aplicado e usado para monitorizar o corpo para obter diagnósticos energéticos,[49] esta prática é conhecida no Japão como Byosen-hō. O Reiki japonês é um tratamento intuitivo e focado, em comparação, por seu lado, o tratamento do Reiki Ocidental pretende tratar geralmente todo o corpo em vez de áreas específicas.

Método

A alegada cura através do método Usui Reiki Ryōhō, em vez medicamentos, usa o olhar, o sopro, o toque e batidas ligeiras.[50] Segundo Frank Arjava Petter, Usui tocava nas partes doentes do corpo, massajava-as e dava-lhes batidas ligeiras, acariciava-as, soprava-lhes, fixava-lhes o olhar durante dois ou três minutos e fornecia-lhes “energia”[51] e usava uma técnica de cura através da imposição das mãos. É através desta técnica que os utilizadores do Reiki acreditam que estão a transferir a energia universal (rei)ki, através das palmas da mão, e desta pensam estar a colocar em funcionamento um hipotético sistema auto-curativo.[52]

Eficácia, ciência e a OMS

O Reiki não é reconhecido pela medicina e nem pela ciência. Os benefícios do Reiki nos cuidados de saúde não estão confirmados cientificamente.[7][9][8] Estudos de 2008 e 2011, realizados para investigar seus efeitos em grandes números de pacientes e com grupos controle, concluíram que as evidências são insuficientes para sugerir que Reiki é eficiente para o tratamento de qualquer condição ou doença em humanos.[6] Outros estudos mais antigos, envolvendo um número reduzido de pessoas,[53]obtiveram resultados positivos no alivio de dor e redução da ansiedade.[54][55][56][57][58] Alguns profissionais de cuidados médicos alertam publicamente para o risco dos pacientes evitarem ou atrasarem tratamentos para doenças graves, clinicamente comprovados, e que podem ter sua condição agravada por acreditarem no Reiki.[11][7]

Em Abril de 2008 foi publicada uma carta de Edzard Ernst (primeiro professor de Medicina Alternativa no mundo) pedindo que a Fundação do Príncipe do País de Gales para a Saúde Integrada retirasse de circulação dois guias que promovem a “Medicina alternativa“, inclusive Reiki.[59] Um porta-voz da Fundação rebateu a carta, dizendo: “Discordamos totalmente da acusação de que a nossa publicação ‘Complementary Healthcare: A Guide’ contém alguma alegação enganosa ou imprecisa sobre os benefícios de terapias complementares, pelo contrário, ela trata as pessoas como adultos e leva uma abordagem responsável, incentivando as pessoas a olharem para fontes confiáveis ​​de informação(…) para que elas possam tomar decisões informadas.”[60]

Há uma divulgação errada em sites e blogs de que o Reiki é reconhecida como terapia alternativa complementar pela OMS (Organização Mundial de Saúde). A OMS nunca reconheceu Reiki oficialmente, como relatado pelo próprio mestre de Reiki que divulgou o suposto reconhecimento.[61]

Estudo placebo-controlado sobre o Reiki é complicado de ser realizado devido à dificuldade de se definir um placebo realista[62]

Eficácia, investigação e controvérsias

Investigação científica

O mecanismo proposto para a energia do reiki é meramente hipotético, uma vez que nunca foi provada cientificamente a existência do “ki” ou da “energia vital” usadas neste método.[6][63]

Uma revisão sistemática de ensaios clínicos aleatórios realizada em 2008 para avaliar os fundamentos das evidências do reiki concluiu que não tinha sido demonstrada qualquer eficácia sob qualquer condição.[6]. De forma geral, a qualidade metodológica das evidências tinha sido má, uma vez que a maior parte dos estudos continha falhas como amostras muito pequenas, concepção inadequada e relatórios de fraca qualidade, tendo até mesmo os estudos com melhor classificação falhado em controlar por completo o efeito placebo.[6] É provável que ensaios com este tipo de falhas apresentem resultados de tratamento exagerados, não havendo evidências suficientes para concluir que o reiki seja eficaz como terapia em qualquer condição clínica, tanto complementar como isoladamente, ou que tenha qualquer benefício para além de prováveis efeitos placebo.[6][59] Uma vez que é difícil conceber um placebo realista, torna-se também difícil realizar ensaios placebo-controlados,[64] embora ensaios posteriores com controlo adequado do efeito placebo não tenham mostrado qualquer diferença entre a prática de reiki e o grupo de controlo.[6]

Uma revisão feita em 2009 no ‘The Journal of Alternative and Complementary Medicine concluiu que “as graves limitações da metodologia e da documentação nos estudos existentes sobre o reiki não permitem que haja qualquer conclusão sobre a sua eficácia.”[65]

Segurança e eficácia

A American Cancer Society constatou também que a investigação que envolve o reiki foi mal conduzida, declarando que “as evidências científicas disponíveis atualmente não sustentam as alegações que o reiki possa eventualmente ajudar na cura do câncer ou qualquer outra doença. Uma investigação mais aprofundada poderia ajudar a determinar até que ponto pode melhorar a sensação de bem-estar de um paciente, se é que provoca alguma.”[13] O National Center for Complementary and Alternative Medicine fez eco desta posição, sublinhando que a existência de campos de energia em terapias de biocampos, como o reiki, “não foram provadas cientificamente.”[14]

As preocupações relativas à segurança no reiki são semelhantes às de qualquer outra terapia alternativa cuja eficácia não esteja provada. Alguns médicos e profissionais de saúde acreditam que haja pacientes em condições graves que podem recusar tratamentos clinicamente provados em favor de terapias alternativas não provadas.[10] Os terapeutas de reiki devem encorajar os seus clientes a consultar um médico no caso de condições graves, declarando que o reiki deve ser apenas usado para complementar a medicina convencional.[66] No entanto, os ensaios clínicos não documentaram nenhum efeito secundário significativo no uso de reiki.[6]

William T. Jarvis, do The National Council Against Health Fraud, indica que “não há qualquer evidência que os efeitos clínicos do reiki se devam a qualquer outro factor para além da sugestão” ou do efeito placebo.[67]

Preocupações da Igreja Católica

Em março de 2009, o Comité para a Doutrina da Conferência Episcopal Católica dos Estados Unidos emitiu um decreto (Orientações para a Avaliação do Reiki enquanto Terapia Alternativa), proibindo a prática do reiki por católicos. O Reiki era usado até então em alguns centros de retiro e hospitais católicos. A conclusão do decreto afirma que “uma vez que a terapia do reiki não é compatível quer com os ensinamentos católicos, quer com evidências científicas, seria inapropriado para as instituições católicas, como as unidades de saúde católicas, ou representantes da Igreja, como os capelões católicos, promover ou apoiar a terapia do reiki.[68] No Brasil a prática também é condenada pela Igreja Católica.[69]

Referências

 

  1. Aquino, Felipe (abril de 2014). «Católico pode buscar a cura no Reiki?». Canção Nova. Consultado em 19 de Novembro de 2015.

Bibliografia

  • Benor, Daniel J. (M.D.) (2000). Spiritual Healing. Scientific Validation of a Healing Revolution Vision Publications (MI) [S.l.] ISBN 1-886785-11-2.
  • Lübeck, Walter; Petter, Frank Arjava;Rand, William Lee (2001). The Spirit of Reiki. The Complete Handbook of the Reiki System from Tradition to the Present Lotus Press [S.l.] p. 304. ISBN 978-0914955672.
  • VELTHEIM, John; VELTHEIM, Esther (1995). Reiki – Metaphysics, Science and Philosophy Parama [S.l.] ISBN 9780964594401.
  • USUI, Mikao; PETTER, Frank Arjava (2003). Original Reiki Handbook of Dr. Mikao Usui Lotus Press [S.l.] ISBN 9780914955573.
  • PETTER, Frank Arjava. The Hayashi Reiki Manual. Traditional Healing Techniques of the Western Reiki System Lotus Press [S.l.] ISBN 9788178222103. Parâmetro desconhecido |cotautor= ignorado (ajuda)

Ver também

Ligações externas

 

 

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